Carta

A fome é um fenômeno cheio de significados. Ela é resultado das desigualdades entre as classes sociais, raça e gênero e, também, da concentração de terras. Mesmo com a redução da fome em alguns períodos, por causa do acesso às políticas públicas, a questão da fome, no Brasil, nunca foi encarada de maneira profunda com a realização de reformas estruturantes em nossa sociedade, como, por exemplo, a reforma agrária. A fome no Brasil é um problema crônico, como dizia Josué de Castro, uma expressão biológica de um problema social. Essa fome estrutural é invisibilizada porque não produz corpos esqueléticos. Contudo, ela pode se manifestar de diversas formas. Criamos um mundo de excessos e desperdícios e nele, fome e doenças relacionadas à alimentação andam de mão dadas.

Com a pandemia e o aumento da crise econômica que já estava instalada no país, houve o agravamento da fome e o que podemos chamar de crises de fome:  um aumento significativo do número de famílias que estão em um estado de insegurança alimentar em seus diferentes níveis. 

Essas crises, em geral, fomentam o espírito solidário nas diversas camadas sociais. Diferentes movimentos populares e a sociedade civil organizada se articulam e buscam minimizar as questões socioambientais já existentes nas populações mais vulneráveis e, agora, potencializadas e escancaradas pela pandemia do novo Coronavírus. O momento exige mais ações coletivas eficazes para minimizar os danos e pede-nos o olhar ao próximo, ao cuidado e à vida.

Como dizia Betinho: “quem tem fome, tem pressa”!

Mas a pressa de quem tem fome não quer dizer que as pessoas em vulnerabilidade alimentar devem comer qualquer coisa. Elas, mais do que as pessoas que têm acesso pleno aos alimentos, necessitam de uma alimentação saudável do ponto de vista nutricional, sociocultural e ambiental, fornecendo condições para que possam sair desta condição. Acreditamos que comida de verdade é aquela produzida livre de agrotóxicos e transgênicos, produzida pela agricultura familiar e partilhada de modo justo e solidário, gerando as condições necessárias para que a vida continue sendo possível, para as atuais e futuras gerações.

Entretanto, nos últimos governos, estamos vivenciando um grande desmonte de políticas públicas de combate à fome. Atualmente, no Estado de São Paulo, o PL529, propõe desestruturação de importantes órgãos, como a Covisa (Coordenadoria de Vigilância em Saúde) e o ITESP (Instituto de Terras do Estado de São Paulo), na regulação de políticas públicas alimentares e de assistência técnica rural. A falta destas ações de controle público, em suas diferentes instâncias, durante a pandemia, podem fazer com que o Brasil retorne ao mapa da fome e seja, também, um dos epicentros emergentes da fome no mundo

Pensando nisso, o coletivo Banquetaço – formado por movimentos populares e a sociedade civil organizada – convoca os demais coletivos, movimentos, plataformas, organizações sociais e poder público comprometidos com a causa da superação da fome, a somarem-se em uma ampla campanha e coalizão durante a semana do Dia Mundial da Alimentação!  

Durante o final de semana (17 e 18 de Outubro) celebraremos para fazer ecoar, em uma só voz, todas as narrativas e ações que estão brilhando e fazendo a diferença na vida de milhões nos mais diversos territórios. 

Quem nos inspira

Ana Maria Primavesi

Engenheira agrônoma e importante pesquisadora da agroecologia e da agricultura orgânica. Nascida da Austria e com atuação no Brasil, ela foi uma das pioneiras na preservação do solo e na recuperação de áreas degradadas a partir de uma abordagem integrada. Também foi professora da Universidade Federal de Santa Maria, onde ajudou a instalar o primeiro curso de pós-graduação em agricultura orgânica e foi uma das fundadoras da Associação da Agricultura Orgânica (AAO).

Carolina Maria de Jesus

Uma das primeiras escritora negra no Brasil a ter projeção internacional. Viveu parte da vida na favela do Canindé, zona norte de São Paulo, e sustentava seus três filhos como catadora de papel. Parte dessa trajetória está no livro Quarto de Despejo, diário de uma favelada, lançado em 1960. A fome tem um papel central na obra, mostrando de forma contundente como é o cotidiano de gestão do processo da fome pela população mais atingida por ela, mulheres, negras e pobres. Apesar da multiplicidade das Carolinas, o racismo editorial da época impediu que ela extrapolasse a temática da pobreza.

Herbert José de Sousa

Mais conhecido como Betinho, foi sociólogo e ativista, criador da Ação da Cidadania em 1993 e o Natal sem fome, uma das maiores campanhas brasileiras que impactou mais de 20 milhões de pessoas. A Ação da Cidadania existe até hoje e formou uma extensa rede geridas por comitês locais da sociedade civil organizada pelo combate à fome. Betinho teve também importante atuação política durante o governo de João Goulart e de Salvador Allende no Chile, quando esteve exilado pelo golpe civil-militar de 1964. 

Josué de Castro

Pernambucano e médico de formação, foi umas das maiores vozes contra a fome no Brasil. Além de ter lançado diversos livros sobre o tema, como Geografia da Fome em 1946, ele atuou politicamente pela criação de políticas públicas de enfrentamento do problema, como a lei do salário mínimo, a criação de restaurantes populares e a alimentação escolar. Foi eleito presidente do conselho da FAO em 1952 e criou a Associação Mundial de Luta Contra Fome em 1957. Foi exilado pelo golpe civil-militar em 1964 por, entre outros motivos, sua luta pela reforma agrária.


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